“Road to Boston”

Este é o último texto da série “Road to Boston”. Portanto, agora vou contar os detalhes da prova, a Boston Marathon ou Maratona de Boston.

Como já havia comentado no meu texto anterior aqui nesta coluna, a Maratona de Boston, nos EUA, é única por vários motivos: a questão do difícil índice de classificação para a prova, por exemplo, é um deles. Outro motivo é a importância histórica do evento. Afina, foi ela a primeira maratona ocorrida fora das Olimpíadas!

Um pouco de história:

A Maratona de Boston é a segunda mais antiga das maratonas, atrás apenas da maratona olímpica de Atenas criada em 1896. Disputada sem interrupções desde 1897, a prova atrai corredores do mundo todo (já foi alvo, inclusive, de um atentado terrorista, em 2013). Até 1965, apenas homens cruzaram a linha de chegada, era proibida a participação feminina. Em 1966, Roberta Louise decidiu desafiar todas as regras e correr, mesmo com a proibição, provando que as mulheres também são capazes de cruzar a linha de chegada depois de 42km195m.

As minhas da cidade preparada para a prova:

A cidade, aliás, toda a região por onde a maratona passa, fica completamente envolvida com a prova. Logo ao chegar, por onde você andar, as pessoas percebem que você irá correr e fazem questão de te parabenizar e desejar boa prova. Isso torna tudo muito favorável. Entretanto, a cidade fica muito cheia, mas nada que complique a rotina dos 35 mil corredores! Boa parte chega de vários locais do mundo com família e amigos. Vira uma festa muito organizada e bonita em uma cidade encantadora.

Eu não conhecia Boston. A cidade não é barulhenta nem acelerada (como Nova York) e é bem típica americana (ao contrário de Orlando e Miami). Afinal, Boston faz parte do berço da história do País, e os americanos se orgulham e prezam muito isso. Aconselho que todos leiam sobre os fatos históricos da cidade antes de vir para cá. Eu li pouco e me arrependi.

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A prova:

A largada é às 10h (fuso de uma hora a menos de Brasília), porém acordamos cedo. A corrida acontece entre diferentes cidades: a largada é em Hopkinton passando por uma estrada em várias cidades. A estrada fica totalmente fechada para os corredores, mas não pense que tem espaço vago para correr! A pista fica cheia de corredores e de espectadores. Sim. São 42km195m de multidão gritando e te incentivando! Isso é algo de tirar o fôlego, inclusive depois do km 21 tem uma multidão de meninas pedindo beijo dos corredores. Muitos param para beijá-las. Virou uma tradição da prova que ocorre na escola de Welleslley. Eu queria ter corrido com uma câmera para ter filmado tudo, pois cada fato é exclusivo e emocionante, mas achei melhor não fazer isso, pois nunca treinei dessa forma.

A maioria dos corredores (pelo menos uns 20 mil) usam o transporte oficial da maratona que sai da cidade de Boston no Common Park, local histórico. Tudo é muito organizado, sem bagunça. Embarcamos nos ônibus amarelos escolares, iguais aos que vemos em filmes. A partir daí, tudo tem significado e é emocionante. Não podemos pensar muito, senão é possível chorar antes mesmo de largar! Pensar o quanto lutou e o quanto é abençoado de participar deste evento é motivo de muito choro… Melhor não pensar! E deixar a emoção só para a chegada…

Depois, os atletas se encontram na cidade de Hopkinton, em local muito organizado, com pães, café, suplementos a vontade e banheiros (nem tantos, mas deu tudo certo). Todos os corredores estavam muito falantes, ansiosos e alegres. Sempre há muita segurança e organização. Tudo é feito dentro do horário marcado, até nos segundos. Cada etapa é realizada dentro do cronograma.

A elite largou às 10h. Eu estava na onda 1 e larguei logo depois. É uma multidão de corredores. Como estamos separados por tempo classificatório ocorre pouco problema no ritmo, cada bloco vai seguindo seu ritmo e isso é muito bom, pois estará correndo com pessoas que provavelmente se classificaram com tempo parecido com seu. Eu fiquei meio pressionado porque na onda 1 a maioria dos corredores tinham tempo abaixo de 3 horas, mas meu bloco era o oitavo, o último bloco da onda um, e isso me aliviou.

Tecnicamente falando a prova é desafiadora. Engana-se quem acha que correr Boston é descida e, por isso, é fácil. As descidas possuem ligeiras subidas e isso vai minando a musculatura. Já fica a dica: para Boston treinem muita subida e descida! Depois do KM 30 tem a famosa HeartBreak Hill, a  subida mais longa da prova. Por ser no final, costuma judiar. E realmente judiou.

Eu saí para fazer uma prova forte. Minha periodização foi muito boa e estava me sentindo bem. Forte, leve e alegre! Mantive minha frequência cardíaca dentro da faixa combinada com treinador e recomendada para maratonas (zona 4 média). O tempo foi indo como um reloginho, perfeito no ritmo de 4min30 por km. Eu segurava bem nas “subidinhas” para não passar do ponto. No km 22, a coisa ficou feia, dei uma quebrada muscular.

Do km 22 para frente foi controlar a prova e correr na raça para não andar, eu não queria andar! Fui controlando para fazer o maior ritmo possível. Não parava nem nos pontos de água, diminuía o ritmo e continuava.  A multidão dos dois lados da pista sempre incentivava os corredores. Eu pensava na energia positiva dos amigos que estavam ali comigo. Pensava na minha família e como Deus era maravilhoso de ter me colocado ali para comemorar meus 45 anos de idade (ano passado eu havia corrido a Maratona de Paris para comemorar os 44 exatamente no dia do meu aniversário, 12 de abril).

Todos esses fatores me deixaram muito feliz. Fiz o melhor que eu podia. Arrisquei e, depois quando percebi que minha estratégia não ia dar certo, eu consegui segurar um ritmo ainda bom para fechar a prova em 3h29min. Muito grato! Não sou o corredor mais rápido do País, nem do meu Estado, nem da cidade! Mas eu pude estar ali naquele momento. Classifiquei-me com meus méritos e sou muito grato por isso. Fui o melhor que podia ser e vou continuar buscando a evolução sempre. Deus no comando.

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Agradecimentos especiais

Para encerrar esse ciclo da Maratona e Boston 2016, faço questão de agradecer a:

  • Deus
  • Minha esposa e filhas. Vocês três são meu maior tesouro e responsabilidade
  • Minha família. Especialmente ao meu pai Nazih, à minha mãe Gilda (in memoriam) e à minha outra mãe de coração, a Vanessa, além da tia Áurea, meus irmãos e outros que carrego em meu coração.
  • Minha equipe: Sport & Tracks e Morgana Assessoria esportiva, especialmente ao meu treinador Guilherme Prudente. Obrigado, Morgana e Lara e demais integrantes.
  • Saudável Confraria, especialmente à Elissama porque me chamou para participar desse projeto e gratidão especial aos que fazem parte do grupo, alguns iniciando, outros são atletas de ponta e todos aprendendo juntos!
  • Amigos RunnersBrasyl: vocês são demais! Grupo querido irmão de coração e alma de corredor!
  • Amigos que torceram e sofreram por mim durante aprova através do aplicativo da maratona e pelas redes sociais. Nunca me senti tão querido!
  • Obrigado, Cristina Teixeira (nutricionista), Jomar Emiliano (educador físico e meu conselheiro), Heder Naves, Wagner (educador físico), Cássio Coelho e Leandro (educadores físicos), Jean (educador físico e professor da Sport & Tracks).

Todos foram muito importantes até mesmo os que não foram citados aqui, mas que estavam envolvidos de alguma forma nesta preparação e neste dia tão especial.

Tenham a certeza da minha gratidão e a sensação de responsabilidade por cada um que cativei conforme a frase do famoso livro Pequeno Príncipe: “Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas” (Antoine de Saint-Exupery).

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